Iniciando a jornada

Ao andar pelo passado a gente se depara com mil e uma coisas.
Centenas de cenas desfilam pela mente. Nessas cenas muitas pessoas marcam nossas vidas. Diversas situações aparecem gritando, querendo vez e voz. Surgem os sentimentos bons e os “ruins” também, com seus motivos pra sorrir e pra chorar, carregando muitas emoções...que é até difícil começar a peregrinação. Mas, se não tentar, como chegar lá? Quando penso em tudo que vivi e que passei, sinto que devo começar (e por hoje...terminar...rsrsrs) a jornada citando a letra de uma música de Guilherme Kerr – “Bem Maior”, que embasa o motivo dessa volta ao passado.
De tudo quanto já ouvi e já experimentei,
De tudo o quanto reconheço que passei,
De tudo quanto já ouvi e até guardei,
De tudo quanto já senti e até sonhei...
Não me recordo de alegria tão maior,
Nem de um amigo que me seja bem melhor,
Nem de conselho tão sábio,
Nem de amor mais intenso do que tenho em Jesus.
Nem de um amigo que me seja bem melhor,
Nem de conselho tão sábio,
Nem de amor mais intenso do que tenho em Jesus.

2 Comments:
E né não, é?
Quem ainda não descobriu isso... tá perdendo é tempo!
Em tempo... Guilhemre Kerr é "meu herói"... diz tudo que eu queria e não consigo!
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Bel, at Maio 03, 2006 10:07 AM
Camacã: terra de sapo governado pela rã!
Viajando pelo passado eu me encontro com uns 12, 13 anos em terrinha longínqua no interior do interior da Bahia chamada Camacã que fica lá nos cafundós dos Judas. Não fosse pela Mara do BBB talvez Camacan (é anasalado e tanto pode ser com acento ou “n” no final) continuasse esquecida como muitas cidadezinhas pequeninas do mundo afora. Com seus parcos 30.000 habitantes é muito menor que muitos dos bairros de cidades grandes, como aqui em Fortaleza, cidade onde atualmente moro e onde trabalho numa ONG num bairro pequeno que possui, por exemplo, mais de 50.000 habitantes. Não fora também por sua localidade estratégica a seis km da BR 101, Camacan, com certeza, seria terra de ninguém e desconhecida de todos.
Mas é em pequenas coisas que residem grandes acontecimentos significativos. Camacan, para mim, se constitui num tempo de uma pré-adolescência preciosa de momentos ingênuos maravilhosos, de prazeres incomensuráveis e de situações tragicômicas inesquecíveis. Lá foi o tempo onde se deu aquele acionar dos dispositivos hormonais que tendem sempre a se desdobrarem em curiosidades e aventuras do corpo e da alma em direção ao mundo. Lembro-me, por exemplo, que me apaixonei por uma menina chamada Angélica, filha do padeiro da cidade que se chamava João Batista Figueiredo. Tanto é, que quando ouvir no jornal que João Batista Figueiredo havia se tornado presidente do Brasil eu achava que era o pai da Angélica. Ah ela era um anjo! Linda, graciosa, com aqueles cabelos negros de asas de graúna. Apaixonei-me desde a primeira vez que a vi. Fazia poesias e muitas musiquinhas para ela. Não deu em nada... Como é de se esperar destes amores da adolescência; regados com muito mais sentimentos do que de estratégias. Por isso que quando lembro dela ainda fico: “Ah se eu não fosse tão inapto para poder abordá-la de jeito!”. Talvez hoje, Angélica teria doces recordações de mim... Mas, entretanto, ainda guardo aquela voz doce, aqueles cabelos apetitosos e aquela pele “macia” em minha memória; fruto de um primeiro amor que fica feito uma mescla de sentimentos enternecidos, como tatuagem, nas bordas do meu coração.
Mas Camacan também foi para mim a terra das primeiras convicções vocacionais: “Quero ser ator!” só porque fiz algumas peças de Maria Clara Machado promovidas pela disciplina de Educação Artística, como por exemplo: “A bruxinha que era boa”; “Pluft o fantasminha” etc. Mas era, realmente, uma verdadeira excitação sair de casa aos sábados para as oficinas e ensaios de teatro. Professores vindo de Salvador só para ministrar aulas para a gente! Que beleza! Aliás, o Colégio Polivalente de Camacan foi uma bênção como um todo, um presente dos deuses! Pois ali tínhamos mais do que educação, tínhamos lições de cidadania. Que orgulho poder cantar o hino nacional, com toda a reverencia ao acompanhar o hasteamento da bandeira! (Que pena que o patriotismo tenha acabado nos dias de hoje!). Que maravilha aquelas carteirinhas de plástico azul marinho de capa dura, onde, para entrar no colégio, tinha que passar pelo Luis Carlos, que carimbava. Acho que ele ficou tanto tempo nessa função que achei que ele nunca mais ia sair disso. E os festivais de poesias? E as festinhas? Caramba! Ainda pegamos as musicas de Celi Campelo como “Estúpido Cupido” no auge! Era o máximo dançar o “Twist!” Escondido, é claro, dos meus pais que eram evangélicos.
Camacã consistiu, de fato, em muitas passagens interessantes: O Colégio Polivalente, sem dúvida, prestou um favor imenso para muitas de minhas inclinações hoje. A pedagogia era voltada para o futuro. Adorava aprender coisas do mundo comercial, jornalismo, técnicas agrárias etc e ao mesmo tempo conviver com a cultura local.
Em Camacã as relações são típicas de um interiorzão mesmo! O velho Walter, meu pai, por exemplo, era e ainda é, conhecido por muitos. “Seu Valter!” Pra lá e “Seu Valter” pra cá. Dava, tranqüilamente, se ele quisesse, ser um vereador de lá, quiçá um prefeito, tamanho era seu carisma e capacidade de relacionamento com tanta gente. Era um orgulho ouvir: “Você é filho do seu Valter? Então é gente boa!”.
Em Camacan aprendi muita coisa com o véi Walter e nossas andanças na roça. Lembro-me das muitas vezes que íamos de pick-up para a roça pegar banana, correr roça de cacau, comer carne seca com farinha e com o mel do cacau que escorria das folhas de bananas bem postas sob as cabaças de cacau que a gente havia “dederado”. Que beleza! E aqueles córregos de água cristalina, friazinha... e as jacas moles que eu, com toda habilidade de subir em cima de “pé de pau”, fazia questão de escalar o galho onde a danada da jaca se encontrava, e, no lugar de jogá-la abaixo para os meninos abrirem enquanto eu descia, eu dava conta de abri-la ali em cima mesmo com a mão, onde aqueles saborosos bagos amarelos sorriam para mim soltando um aroma e um mel delicioso. “Joga, joga!”. Diziam os meninos. E eu absorto com a docilidade da jaca mole dizia: “Perainda, perainda jogo já” e continuava a comer aquela jaca mole deliciosa. Um manjar dos deuses! Mas só depois de saciado é que eu jogava. Não era nem besta, comia minha parte lá em cima mesmo! Pois já havia jogado para eles algumas vezes e sabia, que se fizesse o mesmo, antes que eu chegasse ao chão os bagos já teriam, com certeza, desaparecido todos!
Mas bom também era o que vinha depois: Eu adorava azucrinar com “Chêo”, um menino, filho de um dos trabalhadores que morava na roça (não sei se esse era o nome dele mesmo, nem sei se escreve assim. Ele era moreninho de cabelos lisos e pretos. Talvez descendente de índios, não sei). Pois bem, eu pegava o bagunço (que eu chamava “jagunço”) e batia na pedra na frente deles, pois, segundo eles, se fizesse assim daria caganeira para todos aqueles que tivessem comido da jaca. Eles segredaram isso a mim crentes que eu nunca iria fazer isso, já que havia também comido da jaca. Mas eu não tinha medo de ter dor de barriga, mas tinha: mas minha dor de barriga era de tanto rir correndo atrás de Chêo e de seus irmãos que se embrenhavam na roça pelando de medo pedindo pelo amor de Deus que eu não batesse o bagunço.
Sem dúvida, Camacã é um lugar do meu passado coroado de acontecimentos da infância e inicio da adolescência bastante cheio de acontecimentos interessantes. Ficaria aqui horas e horas relembrando esse tempo, mas quem sabe venha a compor alguma memória de lá. Quem sabe Kézia e os outros manos também não façam o mesmo?
De Keka eu me lembro de algumas coisas de lá de Camacã: lembro que ela, muitas vezes, queria participar de todas as minhas brincadeiras. Kézia sempre foi muito curiosa e participativa. Mas para o irmão, na época, era um saco! Queria sempre meter o bedelho em tudo. Por isso ela sofria muito comigo. Eu a amarrava, judiava, dava sustos, implicava etc,.Mas ao mesmo tempo eu sempre a incluía nas brincadeiras como a de “31 Alerta” que, na época, a gente chamava “trinta-e-um-oleste”, pega-pega etc. e, ao mesmo tempo, também era bom poder participar de algumas brincadeiras dela como “carimba”, “chicotinho queimado”, “jogo de pedras” (acho que se chamava “três marias”), Amarelinha etc. Kézia foi uma boa parceira que me permitiu, junto com ela, também a desconstruir alguns modos sociais e culturais de que a brincadeira tem gênero.
Bons tempos aqueles de Camacã heim? Em que a pura inocência, somada com o aprendizado das primeiras malícias constituía um bom modo de aprender a viver no mundo.
Toninho, com certeza, com a memória espetacular que tem, vai lembrar de muitos e muitos fatos com muitos e melhores detalhes que eu.
Camacã: terra de sapo governado pela rã! Não me lembro de muitas rãs por lá, mas com certeza me lembro do “caso de uma perereca” que ficou antológica:
A cena é a seguinte: estávamos brincando de bolinhas de gude, no estilo de jogo de caçapa, na casa de Robson Boa Morte quando chegou um recado de uma menina que, se não me engano, tinha acabado de se mudar para a nossa rua. O recado era para Toninho. Não me lembro se foi escrito ou se foi passado verbalmente. A questão é que a tal menina estava interessada por Toninho. E que ele respondesse logo o que ele quer dela. Ele, de fato, prontamente respondeu: “Diga para ela que eu só estou interessado no buraquinho de mijar dela”. Daí em diante a pobre da menina ficou conhecida na rua como “Buraquinho de mijar”. Para os mais íntimos apenas “Buraquinho”. Quando a gente a via na rua ela sempre desferia um olhar cheio de raiva para nós. Mas espero, sinceramente, que esse episódio não tenha causado nenhuma seqüela psicológica para ela. Mas se tiver, não tem problema; podem deixar comigo que posso tratar de buraquinho com o maior prazer!
Beijos mana veia. E obrigado por provocar esse espaço de memória! Desculpa aí pela grande quantidade de palavras e de palavrórios. Qualquer coisa vc deleta.
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Anônimo, at Maio 04, 2006 7:29 PM
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